“Foi algo surreal, não pensei que chegaria como está hoje.

Percebi a seriedade das coisas quando chegou o pronunciamento do Conselho Federal de Psicologia sobre os atendimentos presenciais.

Hoje tenho a visão que não será como antes, e temos uma nova realidade, e isso ficará marcado para sempre. Estou preparado para isso!

Minha preocupação é porque tenho um filho de quatro anos e explicar isso para ele é difícil, principalmente para crianças nesse faixa etária, por não conseguir explicar com tanta precisão de modo que eles compreendam.

Esposa, filho… Fomos nos adaptando em casa para não esperar passar para ter que voltar “a vida”.

Enviei comunicado aos pacientes de modo que eles ficassem à vontade. Isso tem funcionado muito bem, com atendimentos, e análise contínua.

A pandemia é um agravante para coisas que já estavam lá.

É um momento de se reinventar.

Temos um mar pela frente, os pacientes perceberam que não adianta esperar passar, e estão tentando se adaptar para continuarem o processo que alguns já haviam começado, seja separação, novo emprego, e por aí vai. O jogo mudou e não adianta ficar esperando.

Gosto muito da forma como a psicanálise encara a situação e dos três grandes autores com os quais me oriento, em termos de leitura e direcionamento clínico: Freud, Winnicott, Lacan, eles têm uma ideia muito próxima ao que se refere ao futuro.

Em Freud temos ali além do princípio do prazer 1920, a ideia da pulsão de morte, a ideia das disjunções de uma pulsão, que desmontam as coisas, ao contrário da pulsão de vida, que promove junção, continuidade e pulsão de morte às rupturas.

Lacan pegou isso, trouxe a ideia de real com aquilo que sempre insiste e se repete, a falta de sentido, a falta de representação, falta de nomeação, que está antes da nossa existência e estará depois da nossa existência.

No seminário 11, Lacan fala sobre a repetição que acontece na clínica e que enquanto você entende a repetição e tenta dar sentido para ela, essa é a sua repetição, aí repetimos as mesmas coisas o tempo todo. E quando ele passa no seminário 11, a pensar na repetição do novo, o que se repete é o real. Não é para lermos o real com coisas do passado, é o real como uma coisa radicalmente nova como a própria estrutura da pandemia, sobre a qual estou raciocinando. Ou seja, não vamos voltar para o passado, vamos para frente.

Então nesse sentido seria como a invenção de futuro, que é o jeito como penso na psicanálise, não algo voltado para o passado que você usa para entender a estrutura de repetição, mas você quebra essa estrutura quando faz a invenção de um futuro, que vai ser algo radicalmente imprevisível e que se formos pensar em psicanálise, é lidar com a incerteza, lidar com o fato de que tudo é impreciso.

Winnicott fala da importância da previsibilidade, no estabelecimento de um self contínuo, e entendo que a pessoa que teve essa experiência na sua história de continuidade (imprevisibilidade), lida melhor com a situação atual, pois tem a experiência do cuidado marcado nela.

Há pessoas com má estruturação nesse sentido, com experiência de continuidade que sempre foi turbulenta e então deixa uma pré desorganização muito fácil e talvez possa sofrer mais com isso.

Mas, independentemente disso Winnicott tem uma ideia da transacionalidade do brincar de saber, fazer conde, inventar, criar algo.

Junto com o que Freud fala da imprevisibilidade, da disjunção, da repetição. Quando falo na pulsão de morte, eu estou junto com o que Lacan fala da ideia de real como novo que se repete que é necessário ser tomado como novo e pego a ideia de Winnicott como a criatividade em cima desse novo. Como você compõe alguma coisa a partir disso.

Claro que, nem todos tem a condição de criação, principalmente na ideia do Winnicott, mas que o trabalho caminha para isso.

Pois alguns estão em busca de momentos anteriores.

E o que temos, é o aqui e agora, o passado ajuda a entender, com algumas coisas que se repetem.

Vejo que a forma com os pacientes e grupos, desse modelo da psicanálise lidam com o imprevisível, o que contribui para a pessoa manter sua saúde mental.”

Saulo Durso faz uma articulação entre Freud, Lacan e Winnicott, para ficar mais claro é interessante retomar o conceito de repetição nos três psicanalistas.

Saulo Durso Ferreira, Psicanalista, Mestre em Psicologia, Professor e Supervisor em Psicanálise, estudos virtuais...

Pessoal, Freud toma exemplos de repetição, que parecem inicialmente nada em comum, além do princípio do prazer: Os pesadelos das neuroses de guerra, os jogos das crianças, o prazer dos adultos em ir ao teatro, as neuroses de destino, a própria transferência, que, de instrumento de uma mudança pulsional, passa a ser regularmente o entrave a uma transformação.

Ele se dá conta que suas hipóteses acerca de uma disjunção entre o princípio do prazer e o princípio da realidade a qual ele acreditava, até então não o convenciam mais.

Freud até 1920 postulava que o ser humano se movia pelo princípio do prazer em oposição ao princípio da realidade. Ou seja, uma criança que não consegue esperar para comer o bolo numa festa, estaria dominada pelo princípio do prazer e não pelo princípio da realidade que era esperar.

Freud inquieto, percebeu em sua clínica que apesar disso a relação entre prazer e desprazer não comprovavam clinicamente, pois ele percebeu que muitos pacientes dos quais havia passado pela guerra repetidamente se lembravam desses eventos e principalmente reeditavam sentindo àquilo naquele momento durante o tratamento.

Ele então se interrogava: Porque então o sujeito não simplesmente esquece, já que é tão ruim?

Certa vez ele observou seu neto. Esse menino jogava o carretel e dizia Fort (ir embora), puxava novamente e dizia Da (ali) mais uma vez.

Freud chama de um jogo em que, presença e ausência poderiam ser dominadas pelo neto.

Pois além dele sentir o desprazer da própria mãe estar junto, ele poderia magicamente fazer retornar um objeto perdido.

Freud se dá conta de que ele extraía um prazer dessa repetição, daí o texto: Além do princípio do prazer e começa a pensar em não apenas na pulsão de vida e de morte, mas fundamentalmente que num conceito de psicanálise é a compulsão e repetição. Ou seja, paradoxalmente repetimos coisas que um observador externo acharia estranho repetir. Seja experiência de dor, perda, sofrimento e experiência de puro masoquismo.

Freud retoma seu texto “Recordar, repetir e elaborar” (1914), no qual sinaliza que aquilo que não pode ser recordado é repetido.

O impulso a repetir seria o motor fundamental da pulsão.

Apego ao que temos ao repetir...

Esforço para produzir a recordação.

Esse processo de lembrança é evitado pela resistência.

Toda vez que aproximamos de algo recalcado e censurado a tendência a repetir se impõe.

Essa repetição pode ser feita de atos, quanto fazemos para não pensar, feita na forma de discursos, discursos repetitivos, que não consegue se aproximar daquilo que seria o elemento desejante ou elemento subjetivante. E a tarefa da psicanálise seria atravessar essa repetição e chegar num momento de elaboração. Recordar, repetir, elaborar.

Texto Recordar, Repetir, Elaborar (1914)

Sintetiza o que faz na análise.

Lembra, recorda, retorna a origem dos nossos sintomas e desejos esquecidos.

Retornamos para reinventar um novo futuro. Enquanto não recordamos, repetimos. Repetição sem sentido. Um presente que não anda. Como se estivéssemos parados na vida.

Recordar, repetir e elaborar. Quanto mais repetimos algo em nossa vida, numa repetição sem sentido ou repleta de repetições que se impõe a nós, que achamos ser força do destino ou outras…

Quanto mais estamos sentindo a vida num conjunto de repetições, mais estamos presentes numa espécie de presente, presente que não passa, presente que não anda.

Presente que nos faz pensar que estamos parados na vida (definição simples do que é neurose).

E por que estamos parados na vida?

Para Freud é devido a interrupção de trabalho ou dificuldade desse trabalho de a partir do presente ir ao passado e projetar o futuro.

Daí então recordar a partir do presente, nossos sofrimentos, enigmas, levando-os a sério, ir para o passado que é revivido na relação de transferência, que é encenado, afetivo, recordável e elaborável.

Trabalho através de nosso passado, presente e a uma elaboração desejante de nosso futuro.

O tratamento psicanalítico começa com uma repetição, ou seja, quando aquilo do que eu falo, minha história, se reatualiza, se repete, na relação com o psicanalista.

As vezes a repetição é tão dramática, intensa que o analisando interrompe o tratamento.Sendo que muitos começam e não dão continuidade.

A pessoa reage aquilo que ela descobre.

“Ah já sei todo o enigma da minha vida”, tanto no sentido sobre o qual me angustio com isso, pois é um abismo e eu vou embora.

Exemplo do caso em que a mulher diz:

Não sei o que acontece em meus romances, sempre ocorrre o abandono. As pessoas me deixam, não sei o que faço ou o que o outro faz. Freud se interessa por isso, mas duas semanas depois a pessoa some da análise.

Ou seja, ela repete com o Freud a sua queixa, sem se dar conta de sua repetição.

Assim também, quando o cliente sai da queixa e vai para o sintoma.

“Antes de tudo no início do tratamento, leva o paciente a mudar a sua opinião consciente em relação a doença. Usualmente ele se contenta em se queixar dela. Despreza-a como uma bobagem e subestima sua importância. Mas de resto continua com o comportamento recalcante em relação as suas manifestações.”

Adotando a política da avestruz, ou seja, isso é um problema na minha vida, mas eu não quero olhar para isso, então coloco a cabeça debaixo da terra.

Política da avestruz contra a doença.

Freud compara a neurose com uma donzela que chega numa cidade, ninguém sabe sobre ela e assim como ela chegou inesperadamente, ela vai embora.

O trabalho mais difícil da análise é passar dessa repetição da transferência para uma elaboração.

Recordar, repetir, repetir, repetir, repetir e elaborar.

O que não quero lembrar eu repito na vida, ajo, faço.

A transferência e contratransferência é essencial para o progresso do tratamento. Porém é necessário que o analista tenha cuidado e manejo para conduzir.

O processo deve ser conduzido respeitando o tempo e o curso do tratamento, sem pressas e sem atropelos, o qual, segundo Freud requer “uma prova de paciência para o analista e uma tarefa árdua para o sujeito da análise.”

Abraço Virtual a todos!

Se liguem na próxima!

Viviane Melo